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27/06/2017

Karibu: moda com transformação social

Marca une estilo a projeto que oferece capacitação e geração de renda para mulheres quenianas

Karibu | Foto: Bebel Moraes

O que levou a advogada Sue Ellen Matthews a largar tudo para traz e se mudar para a África foi o desejo de contribuir para a transformação social da vida das mulheres do Quênia, com as quais havia entrado em contato em uma viagem de voluntariado realizada em 2015. A primeira viagem era, na verdade, uma tentativa de transformar a própria vida. E foi o que aconteceu.
 
Entre o serviço voluntário como professora em escolas, na primeira visita, e a fundação da marca de roupas Karibu, em abril de 2016, a advogada viu e viveu experiências que despertaram nela o desejo de criar um projeto que, de fato, oferecesse alternativas para que as pessoas que foi conhecendo ao longo dessa jornada pudessem mudar de vida.
 
Na ocasião em que voluntariava nas escolas, eu conheci as mulheres do Women Economic Empowerment Project-Devlink. O Devlink oferece assistência para as mulheres pobres da região de Mbita, muitas das quais sofreram abuso sexual enquanto lutavam pela sobrevivência na indústria pesqueira, que é tradicionalmente de domínio masculino. A área é pobre e vive basicamente da pesca e, por uma questão cultural, a atividade de pesca apenas pode ser praticada por homens. Assim, restam poucas oportunidades laborativas para as mulheres. Muitas delas encontram como alternativa comprar os peixes dos pescadores para depois vender no comércio local. Porém, existe uma prática muito comum, e abusiva, nesse negócio, chamada “peixe por sexo”, conta Sue. O contato com a dura realidade social das mulheres locais foi o impulso que a advogada precisava para desenhar o projeto Karibu: marca social que capacita mulheres do Quênia para o trabalho com produção de roupas, treinando e desenvolvendo habilidades e promovendo o empoderamento através da construção da autoconfiança e da geração de renda.
 
A proposta da Karibu, que significa “bem vindo” em Swahili, língua oficial do Quênia, é oferecer profissionalização para as mulheres locais, através de cursos de corte, costura e modelagem. O lucro com a venda das peças é totalmente revertido para o desenvolvimento do próprio projeto e a remuneração das trabalhadoras. Mas o mercado local não oferece demanda para o consumo da produção. E este é o maior desafio da marca: ganhar o mundo e viabilizar retorno financeiro para as costureiras do projeto. 
 
É preciso, portanto, contar com o apoio logístico e financeiro de parceiros para que a engrenagem da Karibu não pare. O Devlink contou com o importante apoio da Embaixada do Japão, que construiu uma sede e doou 38 máquinas de costura, e Sue conseguiu o apoio do Senai Cetiqt, através da Professora Gláucia Centeno. Depois de uma primeira coleção experimental, a parceria com a instituição viabilizou a formação de uma turma de alunos para participarem da co-criação da segunda coleção da marca, desenvolvendo todos os croquis das peças. A equipe do Sebrae também deu grande contribuição, realizando a análise da modelagem do projeto. Além destas empresas, a Karibu conta, ainda, com o apoio de voluntários, que auxiliam nas mais diversas atividades, como assistência de estilo, marketing, informática, e traduções.
 
Mas não é só o lado social que chama atenção para a marca. As roupas produzidas pelas quenianas para o projeto Karibu não deixam a desejar se comparadas à conhecidas marcas do mercado: corte de qualidade, estampas de alto design e tecidos escolhidos à dedo – eles vêm de diversos países do continente africano, como Tanzânia, Congo, Gana e Uganda, e muitos são pintados à mão. Esses materiais exprimem manifestações estéticas fundamentadas por saberes ancestrais transmitidos por várias gerações. Por isso, cada uma das peças da marca carrega em seu DNA um pouco da história desses povos.
 
O projeto também expandiu seus horizontes e, em sua última coleção, lançada em maio deste ano, agregou as habilidades das mulheres rendeiras de Fortaleza, cidade de origem de sua idealizadora Sue Ellen, com o trabalho produzido na África. Algumas peças da coleção foram produzidas por estas artesãs do Ceará, que também carecem de espaço e visibilidade para fazerem seus trabalhos chegarem ao público consumidor. A ideia de Sue, inclusive, é criar uma conexão entre as duas regiões: trazer uma costureira queniana para o Brasil e levar uma rendeira brasileira para lá, para que troquem experiências e aprendam novas habilidades.
 
A peças da Karibu podem ser adquiridas através da internet (www.hellokaribu.com) e, ocasionalmente, em feiras de moda.







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